Pesca Sustentável: Temos de Parar de Comer Peixe?

São cada vez mais as pessoas que deixam de comer carne (principalmente vermelha), devido aos riscos que apresenta para o Planeta e a nossa saúde. Mas então e o peixe? Também temos de deixar de o consumir?

Comecemos pelo princípio. São cerca de 60 milhões as pessoas que trabalham no setor da pesca e aquacultura e estima-se que 200 milhões de postos de trabalho sejam afetados por esta indústria.

Pescadores a puxar redes ao pôr do sol

O peixe é um dos alimentos mais comercializados do mundo. Mais de metade das transações ocorre em países menos desenvolvidos, que acolhem 97% dos pescadores.  

Mais de 3 mil milhões de pessoas dependem da biodiversidade marinha e costeira para viver 

Zonas mais dependentes da pescaFonte: Food and Agriculture Organization of the United Nations

Mas existe um problema: a pesca industrial está a dizimar os oceanos. Os cientistas estimam que as populações dos maiores peixes do oceano, como o atum e o peixe espada, estejam reduzidas em 90% desde a era pré-industrial. 

São espécies muito vulneráveis, por serem capturadas antes de atingirem a maturidade reprodutiva. Desde 2006 que a Greenpeace tem pedido o encerramento das pescas, para recuperar o stock do mar Mediterrâneo.

Foca arrastada por rede de pescaFonte: Tom Campbell, Save Our Seas Ltd. (Marine Photobank)

De acordo com o NRDC, todos os anos, mais de 650 mil baleias e golfinhos são mortos ou ficam gravemente feridos, ao serem inadvertidamente capturados nas redes. Leões marinhos, tartarugas e algumas aves também sofrem com esta captura secundária.

Sabemos agora que os recursos aquáticos não são infinitos e precisam de ser geridos de forma sustentável.

O que é a pesca sustentável?

A pesca sustentável mantêm os stocks das espécies alvo num nível saudável, minimiza os impactos ambientais e assegura a vida dos que dependem do setor da pesca. 

O ecossistema marinho é considerado como um todo nenhuma espécie é ignorada: não só é garantido que as populações capturadas têm peixes suficientes para produzir novas gerações, como não existem impactos negativos para as restantes espécies.

Os consumidores têm o direito de saber de onde vêm todos os peixes vendidos, o que facilita a identificação dos produtos sustentáveis. O recurso a etiquetas certificadas claras pode impedir que o peixe capturado através de pesca ilegal, não-regulamentada e não-reportada (IUU) chegue aos nossos mercados.

Os métodos de pesca são cuidadosamente selecionados em função do habitat, para não danificar o fundo marinho e garantir a sua sustentabilidade. Zonas de reprodução, espécies protegidas ou que contêm juvenis são evitadas.

Resíduos e microplásticosFonte: PEW trusts

O Código de Conduta para Pesca Sustentável da FAO diz como uma zona de pesca pode ser considerada sustentável 

 As alterações climáticas modificam importantes processos químicos, enquanto a poluição envenena as espécies marinhas. É por isso que a pesca sustentável tem de assegurar que não ficam resíduos nocivos no mar e que todo material é trazido para terra, reutilizado e reciclado de forma responsável.

Quais são os peixes sustentáveis?

Os portugueses são os terceiros maiores consumidores de peixe do mundo e os primeiros da União Europeia. Como o consumo nacional é superior ao que conseguimos pescar dentro da União Europeia, estamos dependentes da importação.

Por ano, os portugueses consomem 600 mil toneladas de peixe

Espécies como o atum-rabilho do Pacífico e o espadarte encontram-se altamente ameaçadas e estão com os níveis mais baixos de sempre.

De onde vêm: Atlântico Noreste/Noroeste, Mar Báltico, Mar Mediterrâneo, Oceano Índico e Pacífico 

A maioria das avaliações tradicionais de stock concentra-se no bacalhau, atum, nas vieiras e outras espécies de elevado comércio, sendo muitas outras ignoradas, apesar de se encontrarem à beira da extinção. 

Entre 1950 e 2014 manteve-se:

  • 5% do atum de barbatana azul do Pacífico

  • 10% dos tubarões

  • 5% do bacalhau do atlântico norte

Marine Conservation Society - Sustentabilidade da Truta do Ártico

Segundo o guia Good Fish Guide, da Marine Conservation Society, peixes como o abalone (também conhecido por orelha) ou a truta do ártico estão classificados como espécies sustentáveis.

Marine Conservation Society - Anchovas a evitar Marine Conservation Society - Dourada a evitar 
Marine Conservation Society - garoupas, chernes, badejos e meros a evitar Marine Conservation Society - Bacamarte a evitar

Já o grupo que engloba as douradas, garoupas, os chernesbadejos e meros encontra-se no extremo oposto da escala, tal como o sargo negro (ou goraz), o berbigão e a anchoveta peruana. Para os amantes de enguia, também há más notícias: tanto o congro (ou safio), como a enguia europeia estão ameaçados e é aconselhável evitar o seu consumo.

De onde vêm: Atlântico Noreste, Este e Oeste

Marine Conservation Society - Enguias a evitar

Tirando na Islândia e no mar de Barents, os stocks de bacalhau estão sobrexplorados, pelo que é importante recusar os que não vêm destas zonas.

O salmão do Alaska é um dos menos afetados pela sobrepesca. Contudo, os peixes criados em cativeiro que conseguem escapar cruzam-se com salmões selvagens, produzindo novas gerações menos preparadas para sobreviver. 

E as sardinhas? Podem ir de 2 a 5 na escala (1 - mais sustentável e 5 - menos sustentável), dependendo da zona e do método de captura, por isso é melhor pensares bem antes de partires para uma sardinhada! O mesmo se aplica ao salmonete e ao linguado.

De onde vêm: Atlântico Noreste/Noroeste, Mar Báltico, Atlântico Este/Oeste

As raias e os tubarões são outras espécies muitas vezes ignoradas. Devido à sua fraca taxa de reprodução, estas espécies são vítimas fáceis da pesca por arrasto.

Apesar da falta de informação para uma conclusão mais precisa, o tamboril está classificado em nível 3, o polvo, em nível 4, e o peixe-galo, altamente insustentável, em nível 5.

Barbatanas de tubarão a secar em Jakarta, IndonésiaFonte: Reuters

Através deste guia, podes ver o estado dos stocks e impactos ambientais de cada espécie, comparar os locais onde há captura responsável e encontrar alternativas aos teus hábitos alimentares.

Especificamente para Portugal, a Greenpeace tem uma Lista Vermelha de Peixes, publicada em 2008. É importante não esquecer que mais estudos têm de ser feitos nesta área, para que a informação esteja em permanente atualização.

 A pesca sustentável é possível?

Os apoiantes da pesca sustentável defendem que uma prática de pesca mais tradicional, com embarcações mais pequenas e uma equipa mais reduzida contribui para uma captura responsável, ao contrário da pesca industrial, com redes gigantes e instrumentos que danificam o fundo marinho.

colheita manual - através do mergulho - ou a pesca com linha, anzóis e arpões são os métodos mais seletivos (em termos de espécie, tamanho e idade) e menos nocivos.

A aquacultura responsável também é uma forma de evitar a sobrexporação das populações sevagens. Ainda assim, algumas organizações acreditam que a indústria se desenvolveu demasiado depressa, em detrimento de habitats marinhos costeiros.

Cana de pesca, anzol e rede

São várias as organizações não governamentais internacionais que se alinham com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14, para proteger a biodiversidade dos oceanos e promover a pesca sustentável.

Além da manutenção das espécies marinhas, a pesca sustentável também se compromete a atacar os problemas da pouição ambiental e sonora, dos plásticos e microplásticos, da destruição de habitats e zonas de corais, aumento da temperatura e acidificação da água e extensão dos areais.

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 - Proteger a Vida Marinha

  • O foco da Oceana é a conservação dos oceanos 

  • ASC e a MSC promovem (respetivamente) a aquacultura e pesca responsável, através dos seus certificados e requisitos, que abordam os impactos sociais e ambientais da indústria 

  • Através do programa Seafood Watch do Monterey Bay Aquarium, podemos aceder a recomendações científicas para um consumo mais sustentável de espécies aquáticas 

  • Instalada na marina de Cascais, a Sailors for the Sea Portugal trouxe os programas americanos para o nosso país, de forma a alertar para a emergência da sustentabilidade marinha

O que podes fazer para contribuir para a pesca sustentável?

Informa-te: observa os rótulos e ganha o hábito de perguntar de onde vêm os produtos e como foram capturadosSegundo a legislação da União Europeia, as marcas são obrigadas a declarar as espécies de peixe, a área e o método de captura e criação dos animais.

Se um termo genérico é usado para o nome do peixe, pergunta qual é a espécie. Se não tens conhecimento suficiente para fazer uma escolha informada, não compres.

Certificados MSC e ASC

Escolhe orgânico! Por norma, os produtos orgânicos vêm de zonas com menos lotação e elevados padrões de desempenho ambiental e sustentável.

Se vais continuar a comer peixe, pensa que temos de parar de consumir sempre as mesmas espécies e ir variando, tendo em conta as mais sustentáveis. 

Menino a pescar

A indústria da pesca, no seu todo, não pode ser considerada sustentável, enquanto existir pesca ilegal, não reportada ou não regulada. 

Segundo os especialistas, deixar de consumir proteína animal é uma das várias formas de salvar o nosso Planeta, mas, se ainda não estás preparado para abraçar esta mudança, certifica-te de que o peixe que consomes é sustentável :)

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