Bioplásticos: Parte da Solução ou do Problema?

Perante os desafios ambientais que enfrentamos actualmente devido à poluição de lixo de plástico no nosso Planeta e Oceanos, é natural que haja uma crescente procura de alternativas ecológicas. 

Embora, a meu ver, grande parte da solução envolva uma redução drástica da produção de lixo em geral, sobretudo se descartável, desnecessário ou não reciclável, parte da solução passará também pelo uso e invenção de materiais realmente sustentáveis.

A produção e consumo de bioplásticos tem vindo a aumentar consideravelmente nos últimos anos devido à crescente procura de produtos mais ecológicos.

Em Portugal, o uso destes plásticos já se verifica, não só em festivais sustentáveis, supermercados, lojas e outros estabelecimentos preocupados com o bem-estar do nosso Planeta, mas também em diversas aplicações do sector da agro-indústria, entre outros.

 

Saco bioplástico

 

Provavelmente já viste copos, talheres, palhinhas, sacos de plástico e outros objectos feitos de bioplástico. Alguns estão bem identificados com descrições como green bags (sacos verdes) ou compostable (compostáveis) mas, se a sua identificação não for óbvia, nem sempre é fácil distinguir alguns dos plásticos normais.

 

Apesar de todo o marketing ambiental associado a estes materiais, serão os bioplásticos verdadeiramente sustentáveis? A resposta a esta questão não é de todo simples.

Para entender os problemas e as vantagens ambientais que poderão resultar da sua produção e do seu uso, torna-se primeiramente necessário entender: afinal o que são os bioplásticos?

 

Segundo a European Bioplastics, um material plástico é definido como sendo bioplástico se for total ou parcialmente derivado de biomassa (proveniente do milho, da cana de açúcar, celulose, entre outros) e/ou for biodegradável (isto é, se puder ser convertido quimicamente pela acção de microorganismos em substâncias mais simples, como água (H2O), dióxido de carbono (CO2) e/ou metano (CH4), biomassa e compostos inorgânicos).

 

Cana de açúcar - plantação

Plantação de cana de açúcar   créditos: Noal Farm

 

A família dos bioplásticos pode ser dividida em três grupos principais:

 

- Bioplásticos não biodegradáveis provenientes total ou parcialmente de recursos renováveis (biomassa) – Plásticos como o Polietileno (PE), Polipropileno (PE) e Policloreto de vinilo (PVC) podem ser produzidos a partir de fontes renováveis, nomeadamente a partir do bioetanol. O bio-PE já é produzido em larga escala no Brasil. A PlantbottleTM da Coca-cola contém PET parcialmente derivado de biomassa;

 

- Bioplásticos biodegradáveis provenientes de recursos renováveis (biomassa) – Este grupo inclui poliésteres biodegradáveis como o Polihidroxialcanoato (PHA) e o Ácido Poliláctico (PLA), usado já em Portugal em numerosos produtos descartáveis, e ainda outras misturas de amidos;

 Copo PLA

Copo PLA

 

- Bioplásticos biodegradáveis provenientes de recursos fósseis – Este grupo pequeno de bioplásticos é usado sobretudo para melhorar as propriedades mecânicas de amidos e outros bioplásticos. O  poli(butileno adipato-co-tereftalato) (PBAT) é um plástico biodegradável fabricado a partir de combustíveis fósseis usado, por exemplo, em filmes agrícolas.

 Material Bioplástico Grupos – 1º Diagrama https://www.european-bioplastics.org/bioplastics/materials/

 

Em conclusão, os bioplásticos não são todos iguais.

Geralmente são considerados como sendo mais ecológicos devido à sua biodegradabilidade (benefício ambiental associado ao destino final do produto) e/ou devido ao facto de serem produzidos a partir de fontes renováveis (benefícios ambientais durante a sua produção).

 

Alguns benefícios ambientais associados à sua produção a partir de fontes renováveis incluem:

  • Potencial pegada de carbono substancialmente menor, sobretudo se o bioplástico for produzido para uso permanente ou reciclado múltiplas vezes (o COcapturado pelas plantas durante o seu crescimento através da fotossíntese permanecerá sequestrado no produto até à sua degradação);
  • Parcial independência relativamente à indústria dos combustíveis fósseis (com todos os seus problemas de poluição associados).

 

Indústria Petrolífera

 

No entanto, alguns problemas ambientais associados à sua produção a partir de fontes renováveis incluem:

  • Potencial aumento do uso de terra arável, podendo competir directamente com plantações destinadas à agricultura de bens alimentares e/ou colocar áreas florestais em perigo;
  • A sua produção requer energia bem como todas as operações envolvidas na plantação das culturas adequadas. Todos estes processos geralmente envolvem o uso de combustíveis fósseis, pesticidas e água.

 

Florestas em perigo

 

Alguns benefícios ambientais associados à sua biodegradabilidade incluem:

  • Contrariamente aos plásticos convencionais, que permanecem durante séculos no Planeta e prejudicam o meio ambiente, nas condições certas, os bioplásticos são biodegradáveis;
  • Estudos científicos demonstraram que alguns bioplásticos, nomeadamente o PLA e o PHA, não libertam substâncias tóxicas durante a sua permanência e degradação em ambiente marinho;
  • Devido à sua estrutura molecular, idêntica aos plásticos normais, alguns bioplásticos podem ser reciclados juntamente com os restantes plásticos (um exemplo é o caso da PlantbottleTM).

 

Poluição Oceanos

 

Porém, alguns problemas ambientais associados à sua biodegradabilidade incluem:

  • A grande maioria dos bioplásticos usados actualmente (incluindo o PLA) necessita de condições especiais para se biodegradar (só possíveis em unidades industriais especializadas) e poderá não se degradar na Natureza, nomeadamente nos meios aquáticos. Devido a estes motivos, não resolvem o problema da poluição de plástico nos Oceanos;
  • Nem todos os bioplásticos biodegradáveis são compostáveis. Para tal, os bioplásticos têm de obedecer a uma série de standards científicos (em termos de tempo) no que diz respeito à sua desintegração e biodegradação (em determinadas condições) e não deverão apresentar resíduos visuais ou tóxicos no final do processo;
  • Devido à sua estrutura molecular diferente, alguns bioplásticos não podem ser reciclados juntamente com os plásticos normais, pelo que poderão contaminar o processo de reciclagem actual se forem indevidamente colocados no ecoponto.

 


 

Do meu ponto de vista pessoal, os bioplásticos têm algum potencial, sobretudo se entretanto forem inventados novos materiais biodegradáveis que se degradem completamente em meios aquáticos e que sejam completamente inócuos para o meio ambiente. Possuem, no entanto, uma série de problemas associados que poderão agravar a sustentabilidade do Planeta.

 

Não sendo de momento a solução para o problema de plástico nos nossos Oceanos, será que são realmente vantajosos? Talvez para algumas aplicações, se devidamente identificados, se a sua produção for energeticamente eficiente e se a fonte de biomassa usada for realmente ética e sustentável. Mas não deverão ser usados como solução para manter a cultura do plástico descartável e de lixo em que vivemos actualmente.

 

Se desejas fazer realmente parte da Solução, simplifica: reduz, escolhe com base na sustentabilidade do Planeta, reutiliza e recicla.

MOVIMENTO SEM PALHINHAS

Este artigo foi escrito pela Inês Gonçalves, membro do Movimento Sem Palhinhas, que tem como objectivo criar uma comunidade e sensibilizar todos com pequenos gestos, dicas e eventos de cariz solidário que possam fazer diferença no nosso planeta. Ainda não os conheces?

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