Entrevista FAP: Queima das Fitas Rumo a um Evento Sustentável

Desafiados pela Planetiers, o Francisco Mendes e o Miguel Macedo da ShARE-UP aceitaram o desafio de perceber o que faz um evento "verdadeiramente" sustentável e se é possível a um festival cumprir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU sem comprometer a sua viabilidade económica.

Apesar do evento escolhido lhes ser próximo, descobriram um lado sustentável na edição de 2018 da Queima das Fitas do Porto, que incluiu várias medidas elegíveis no programa Sê-lo Verde.

Entrevista FAP - ShARE-UP : Eventos Sustentáveis

Que tipo de medidas foram implementadas na queima das fitas do Porto 2018?

Foram desenvolvidas medidas com foco em 4 vetores: Recursos, Educação,Transportes e Energia, cujas principais medidas foram:

  • 2 projectos de reciclagem de água, com apoio técnico das Águas do Porto:
    • aproveitar águas para abastecer autoclismo;
    • sensibilização para o bom uso da água;
  • Instalação de 18 aguadeiros para distribuição de água da torneira;
  • Queima sem carbono que envolveu a plantação de árvores proporcional ao consumo energético (da rede eléctrica e de geradores) e hídrico;
  • Utilização de Painéis solares.

Os resultados obtidos foram:

  • Redução de 3000 L no consumo de água potável;
  • Redução de 25% dos sanitários químicos e transporte de dejectos para tratamento em ETAR;
  • Consciencialização feita no recinto e com a plantação (pendente) de 4 hectares de árvores pela QUERCUS.

Beber água da Torneira - Água do Porto - Queima das Fitas - Foto - Miguel-Nogueira

Como é que se financiam estas medidas sustentáveis?

A existência de vários incentivos na parte estatal, como reduções no IRS, dedução de IVA, entre outros, permite que grandes empresas como EDP e Super Bock financiem estas medidas.

Contudo, a mudança de mentalidade passa pela consciencialização dos altos cargos das empresas de que o planeta não vai aguentar muito mais tempo com este tipo de agressão.

“Seria muito difícil à 20 anos, no auge da mentalidade corporativa e capitalista, implementar estas medidas.”

Sentiste dificuldade da parte dos organizadores em aceitar medidas sustentáveis?

Seria impossível implementar produtos mais sustentáveis, como o copo reutilizável, em termos monetários. Por  exemplo, no consumo de uma cerveja (Super Bock) é mais barato ter um copo novo seco e descartável (que são gratuitos) a um copo molhado e reutilizável (associado a uma tara).

Idealmente, a reutilização do copo no festival cria desgaste no copo, como pequenos cortes, que acabam por afetar o sabor da cerveja.

“Para implementar uma visão ambiental num evento é necessário redefinir a projecção de lucro.”

Os eventos sustentáveis lucram mais ou têm mais prejuízo que um evento normal, em termos de organização e construção?

Depende tudo do definido como margens aceitáveis. Se o objectivo do organizador for maximizar o lucro, as medidas sustentáveis em geral não são rentáveis, porque não são utilizados os recursos mais baratos e de acesso mais fácil.

Copo Reutilizável Super Bock - Evento Sustentável - Queima das Fitas - Foto - Miguel Nogueira

A produção de 10 copos descartáveis é mais barata do que a de 1 copo reutilizável que faz com que, em vários festivais, os copos descartáveis sejam oferta e os copos reutilizáveis não.

“Basta 1 copo reutilizável para ser mais caro do que todos os copos utilizados em 2017”.

Actualmente, a escolha de algumas empresas em oferecer copos reutilizáveis passa por uma decisão de marketing, dando penso à responsabilidade ambiental em detrimento do lucro.

Na queima, a diferença de copos utilizados, contando os copos reutilizados e em comparação com 2017, houve uma redução de 500 mil copos. Em termos de copos, representou uma poupança de cerca de 0.5% do consumo anual do País.

“Em Portugal, gastam-se 100 milhões de copos descartáveis anualmente.”

Esta medida preveniu a produção, recolha e reciclagem de 90% de plástico descartável, ou seja, 10,5 toneladas de copos poupados, passando de 12 toneladas em 2017 para 1,5 toneladas em 2018. 

Esta poupança global de recursos e energia não é contabilizada a montante, com a agravante “do seu custo actual” ser transferido ao consumidor consciente.

Recolha selectiva de resíduos de Madeira - Evento Sustentável - Queima das Fitas - Foto - Miguel Nogueira

Num evento como o nosso, que dura 8 dias, o ganho ambiental é considerável. Agora imagine-se que se estendia a todos os festivais, que conseguissem reduzir aproximadamente os mesmos valores de consumo de resíduos que a Queima, isto é 90%... estamos a falar de uma dimensão enorme.

Este ano a Queima das fitas do Porto irá continuar o programa Sê-lo Verde?

Penso que sim, mas não há confirmação por parte do fundo ambiental. Tudo depende do fundo ambiental em termos de financiamento e da estratégia para este programa.

Neste momento podemos considerar o Sê-lo Verde uma vitória, porque dificilmente qualquer festival que introduziu copos reutilizáveis para o próximo ano o vá ter.

Em termos de imagem seria gravíssimo não manter uma medida, porque a parte mais difícil é implementar uma medida e que a mesma seja bem sucedida. A dúvida inicial do que temos de fazer ou que temos de comprar já foi ultrapassada, porque “após um ano já é tradição”.

Os resultados obtidos pelo nosso evento transparecem que o programa foi bem-sucedido, mas depende como o ministério do ambiente irá encarar este novo programa.

Queima das Fitas - Queimódromo - Evento Sustentável - Foto FAP

Como é que a Queima se candidatou ao Sê-Lo Verde?

O Sê-lo Verde do fundo ambiental financia ideias novas, e foca-se em 4 vetores de um evento:

  1. Recursos
  2. Educação
  3. Transportes
  4. Energia

Cada medida introduzida era classificada pelos 4 vetores, onde cada um deles tinha um peso de ¼ do valor final do financiamento, distribuído por 2 classes:

  1. Eventos com mais de 25000 por dia;
  2. Eventos com menos de 25000 por dia.

A queima das fitas do Porto é elegível na classe 1, e para este tipo de financiamento havia uma série de critérios para avaliação.

O objetivo do fundo ambiental é ajudar a implementar ideias novas no evento com vista a melhorá-lo em cada um dos vetores, ou seja, com uma avaliação de 0 a 5 em 5 pontos, consoante as vantagens das ideias.

No vetor Recursos, a medida de reciclagem da água estudada em parceira com a Câmara do Porto foi a melhor avaliada a nível nacional em pré-execução, onde foi avaliada em 4.0.

Um dos pontos que mais pesou foi a inovação seguida da replicabilidade da ideia noutras situações.

Podemos então concluir que o que se procura é um pequeno laboratório de experiências, para descobrir onde se pode melhorar e adaptando as medidas mais bem cotadas. 

Medição de Ruído na Queima das Fitas - Evento Sustentável - Foto Miguel Nogueira

No caso da Queima, usamos 10 módulos de WC que reutilizam águas pluviais, já que normalmente chove nessa semana de Maio no Porto. Contudo, não foi possível utilizar “toda a água pluvial” nos módulos, pela limitação do depósito do módulo.

A vossa ideia podia ser aplicada a outros festivais?

A utilização destes módulos pode ser utilizada em festivais, mas também pode ser adaptada em edifícios, já que um festival está limitado ao número de dias enquanto num edifício este sistema de recuperação de águas pluviais seria utilizado durante anos.

Esta e outras conclusões foram incluídas no relatório do evento, passado para o fundo ambiental, com o que correu mal, bem e o porquê dos resultados.

FAP recebe prémio Sê-Lo Verde - Evento Sustentavel - Queima-Das-Fitas

A essência do Sê-lo Verde é financiar pequenas experiências sustentáveis, fruto dos desafios que os próprios promotores pretendem resolver, promovendo uma mentalidade de melhoria contínua e, quem sabe, adaptar estas experiências a outras situações.

“É fazendo que as pessoas vão descobrindo onde melhorar.”

Com este tipo de visão, o Sê-Lo Verde pode durar anos, porque nunca será atingido um patamar tal que todas as ideias sustentáveis aplicáveis sejam descobertas e, à partida, haverá sempre algo a melhor num evento, festival, ou outro qualquer evento.

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