Dia Mundial do Inseto Comestível em Portugal

No Dia Mundial do Inseto Comestível, 27 de Outubro, fomos à Escola Superior de Turismo do Estoril conhecer a Portugal Insect e saber um pouco mais sobre esta alternativa de proteína animal que sempre nos foi apresentada como:

“Viscoso… mas Gostoso” 

Viscoso mas Gostoso - Simba do Rei Leão como uma minhoca

Portugal Insect – Já se podem comer insectos na União Europeia?

De forma generalizada não, como salientou Oscar Silva, da Portugal Insect. Uma vez que os insectos tem estatuto de “novel food”, a sua aprovação para consumo humano é feita pela “ASAE” europeia, a EFSA.

Atualmente a EFSA não tem espécies de insetos comestíveis aprovadas, havendo, contudo, 5 espécies em processo de aprovação: Acheta domesticus; Gryllodes Sigillatus; Alphitobius Diaperanus; Tenebrio Molitor (também conhecido como Bicho da Farinha) e Locusta Migratoria.

Espécies de insectos comestíveis em aprovação pela União europeia como novel food

Existem, contudo, algumas empresas europeias a comercializar produtos comestíveis à base de insetos, que estão isentas deste regulamento no Reino Unido, Dinamarca, Bélgica, Holanda e Finlândia.

Comer insetos é seguro?

A preparação, processamento e transformação de qualquer alimento deve respeitar regras restritas (HACCP). A investigadora Sara Costa, do IPMA, optimizou este processo na espécie Tenebrio Molitor, caracterizando-o ao nível nutricional e microbiológico. Ainda testou duas receitas com mistura de farinha desta espécie, comparando-a com outras receitas originais em provas cegas.

O perfil nutricional revelou 18% de teor proteico e 10% lipídico, com destaque para a presença de aminoácidos essenciais e de ácidos gordos correntes (pex: o oleico do azeite), respectivamente. Do ponto de vista químico (pex: metais pesados) e microbiológicos (pex: bactérias patogénicas) não foram detectadas ameaças.

Nas provas cegas, as bolachas de manteiga tiveram boa receptividade pelos provadores, distinguindo-se contudo pela ligeira cor avermelhada e textura crocante que as distinguia das originais. Já a receita de salsicha de Tenebrio ainda precisa de algumas melhorias.

Prova cega com bolachas de manteiga e Tenebrio Molitor

Como cozinhar insetos comestíveis?

A Chef e Professora Patrícia Borges da ESTM, especialista na confeção de insetos, revelou-nos alguns dos seus segredos. Ao nível de espécies experimentou um pouco de tudo, desde grilos a gafanhotos, confessando que a melhor surpresa que teve foi com a barata argentina.

Na preparação, fritar e guisar não funciona para todas as espécies, dado que ou rebentam ou se desfazem. Apesar do valor nutricional dos insectos, que poderiam enriquecer outros alimentos, defende que, pelo atual preço de compra, será melhor empregue em experiências Gourmet, preferindo-os na forma desidratada.

Esta foi a cara da Júlia antes da prova dos biscoitos de insetos confecionados pela Patrícia. 😉

Querida Júlia - Comer Insectos - Chef Patrícia Borges

O que dizem os consumidores?

O Professor Luis Cunha, da FCUP, relembrou que metade do mundo inclui insetos na sua alimentação e a FAO (Food and Agriculture Organization) das Nações Unidas aconselha um maior consumo de insetos comestíveis para a outra metade … o “Ocidente”. Entre os motivos pela rejeição cultural aponta o medo e a repulsa, iguais aos experimentados pelo Sushi há 20 anos atrás.

No estudo populacional que orientou detectaram-se 4 populações: os “enojados”, os que “rejeitam”, os que “aceitam apenas para ração animal” e os que “aceitam como alimentação humana e animal”.

Conclui que para o consumidor português há alguma aceitação dos mesmos quando o sabor não é comprometido, seja misturado noutros alimentos (pex: barras proteicas) ou na confeção de autor (pex: queques com topping).

Insectos Comestíveis - Perspectivas futuras para a alimentação

A prova

O momento mais esperado foi o lanche tardio preparado pela Chef Patrícia Borges e com a aprovação prévia da DGAV. Os participantes apressaram-se para as mesas para provar as iguarias confecionadas com larvas desidratadas de Tenebrio Molitos inteiras ou na forma de farinha. Deixamos-te aqui a crítica gastronómica (amadora) do nosso Planetier Rui Garcia:

Canapé de Guacamole com Larvas Desidratadas

“O sabor das larvas desidratadas confere uma textura crocante ao canapé, que não apaga a frescura do guacamole. 5*!”

Canapé com Guacamole e Larvas Desidratadas em tábua de madeira

Folhado de Doce de Abóbora com Larvas Desidratadas

“O crocante do folhado omitiu o da larva desidratada, apenas revelada com a degustação atenta do doce de abóbora. 4*!” 

Folhado de Doce de Abóbora com Larvas Desidratadas

Bolo de Chocolate com Farinha Recheio e Cobertuta de Larvas

  “A textura húmida e o sabor doce do bolo não foram comprometidos com a mistura de farinhas. As larvas deram uma textura crocante tanto na cobertura como no recheio do bolo. 5*!”
Bolo de Chocolate com Recheio Cobertuta e Massa com Larvas Tenebrio Molitor

Pires de Larvas Desidradatadas

  “A apresentação na forma desidratada simples constitui um bom aperitivo, que poderia facilmente ser acompanhado por uma cerveja. 4*!”

Prato de Larvas de Tenebrio Molitor Desidratadas

Para levar para casa… apenas se quiseres

O estatuto de “novel food” conferido aos insetos comestíveis pretende salvaguardar casos de saúde pública, devendo estar salvaguardadas as melhores práticas de higiene e segurança (HACCP) na produção destes insetos (DGAV).

Do ponto de vista nutricional, a sua incorporação parcial em alimentos pode enriquecer os mesmos e tem boa aceitação (inclusive em Portugal) desde que não comprometa o seu sabor.

A alergia a insetos comestíveis tem grande associação a alergia a crustáceos, pelo que nestes casos devem ser introduzidos na alimentação de forma ponderada.

Os insetos comestíveis constituem uma alternativa racional e sustentável à proteína de base animal, suportada por uma menor pegada ecológica e uso de recursos (água e solo). A possibilidade de incorporação em soluções de compostagem de lixo orgânico (pex: vermicompostagem) pode facilitar a transição da economia europeia para um modelo circular.

Economia Circular - Vermicompostagem - Entogreen

As recomendações do relatório da FAO de 2013 são peremptórias em afirmar que os países ocidentais estão a desperdiçar uma oportunidade de inovação por preconceito cultural histórico:

"Edible insects have always been a part of human diets, but in some societies there is a degree of distaste for their consumption. Although the majority of edible insects are gathered from forest habitats, innovation in mass-rearing systems has begun in many countries. Insects offer a significant opportunity to merge traditional knowledge and modern science in both developed and developing countries."

E tu, vês-te a comer insetos? Diz-nos nos comentários ;)

3 comentários

  • Fico contente por haver essa abertura. :)
    A integração parcial em alimentos é a solução corrente mais aceitável pelo preconceito que temos dos insectos.
    Se houver próxima prova organizada pela Portugal Insects posso dar-vos o toque. ;)

    Rui Garcia
  • Se fosse para comer, seriam as bolachas ou outra alimento em que o insecto já teria sido processado de forma a não ter de o ver…

    Joana Gouveia
  • Sem dúvida , além do mais o planeta agradece!

    Ricardo

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